Capoeira é patrimônio cultural

Roda de Capoeira em Stº. Amaro Foto RitaBarreto.JPG

Vencidas as perseguições e superados os preconceitos do passado, a capoeira deu a volta por cima, legitimando-se, ao longo dos anos, como um dos principais símbolos da cultura brasileira. Em julho deste ano, porém, a dança recebeu merecido reconhecimento público, ao ser elevada à condição de Patrimônio Imaterial da Cultura Brasileira, o 14º bem cultural registrado no Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (Iphan) e Ministério da Cultura (MinC), que também incluíram o ofício dos mestres da capoeira no Livro dos Saberes, e, da roda de capoeira, no Livro das Formas de Expressão.

A capoeira chegou ao Brasil no século XVI, com os escravos da etnia banto, que vieram da África com os seus costumes, religiões, trajes e idiomas.  Aqui, camuflada em dança, por causa das perseguições policiais que sofreu até as primeiras décadas do século XX, a luta virou arte, incorporando músicas e instrumentos, como o berimbau, pandeiro e caxixi. Com título de Patrimônio Imaterial da Cultura Brasileira, a capoeira vai receber uma série de benefícios do MinC. O primeiro deles é a criação de um Centro Nacional de Referência da Capoeira, que contará com um programa de incentivo à prática no mundo todo. O rol de medidas inclui também a preservação da biriba, madeira utilizada na fabricação do berimbau, que passará a contar com plano de manejo. Para os capoeiristas, a novidade fica por conta da instituição de um Plano de Previdência Especial, que beneficiará velhos mestres da capoeira.

História, cenário e tradição
Diferente do que muitos imaginam os negros não aceitaram pacificamente o cativeiro. A história está repleta de exemplos, como a Revolta dos Malês e das várias rebeliões registradas ao longo do século XIX, principalmente na Bahia. A Capoeira é um dos símbolos da resistência do povo africano. Não se conseguiu ainda comprovar cientificamente a sua origem no Brasil. Mas provavelmente, a luta tem suas raízes na luta, que trouxeram para o Brasil, os escravos de origem banto, que habitavam a região da África Austral, hoje Angola.

Desenvolvida e aperfeiçoada como forma de defesa nos quilombos – comunidades organizadas pelos negros fugitivos, em locais de difícil acesso-, a capoeira foi sendo ensinada aos cativos pelos escravos fugidos que eram capturados e retornavam aos engenhos. Como os senhores de engenho proibiam os escravos de praticar qualquer tipo de luta, os movimentos da capoeira foram adaptados com cânticos e músicas africanas para ser confundida com uma dança. Como o candomblé, que era cercado de mistérios, a capoeira se constituiu numa forma de resistência cultural e física dos escravos brasileiros. A prática da capoeira ocorria em terreiros próximos às senzalas e tinha como funções principais à manutenção da cultura e da saúde física, além de alívio do estresse do trabalho. Muitas vezes, as lutas ocorriam em campos com pequenos arbustos, chamados na época de capoeira ou capoeirão. Por isso, a luta recebeu este nome.

Do campo para a cidade, a luta ganhou a malícia dos chamados “negros de ganho” e dos freqüentadores da zona portuária. Em Salvador, capoeiristas organizados em bandos provocavam arruaças nas festas populares e reforçavam o temor das autoridades da época. Até 1930, a prática da capoeira foi proibida no Brasil. A polícia recebia orientações para prender os capoeiristas que praticavam a luta. Neste ano, um dos mais mportantes capoeirista brasileiro, mestre Bimba, apresentou ao então presidente Getúlio Vargas, uma variação mais ligth da luta. O presidente gostou tanto que a transformou em esporte nacional brasileiro. De lá para cá a capoeira Angola aperfeiçoou-se na Bahia mantendo fidelidade às tradições, graças principalmente ao Mestre Pastinha, que jogou Capoeira até os 79 anos, formando gerações inteiras de capoeiristas de Angola.

 

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