Baianos e baianas

Abdias do Nascimento
Abdias Nascimento nasceu em 14 de março de 1914 em Franca, São Paulo. Filho de uma doceira e um sapateiro, desde cedo, já lutava por seus objetivos e ideais.  Adolescente, foi para São Paulo e logo se engajou em movimentos afros, sendo um dos fundadores, aos 17 anos, do mais histórico deles, a Frente Negra Brasileira. É  considerado um dos maiores defensores da defesa da cultura e igualdade para as populações afrodescendentes no Brasil, intelectual de grande importância para a reflexão e atividade sobre a questão do negro na sociedade brasileira. Teve uma trajetória longa e produtiva, indo desde o movimento integralista, passando por atividade de poeta  até ativista do Movimento Negro, ator (criou em 1944 o Teatro Experimental do Negro) e escultor.

Organizou a Convenção Nacional de Negro em São Paulo e Rio de Janeiro em 1945, 1946, respectivamente, e o 1º Congresso do Negro Brasileiro no Rio de Janeiro em 1950. Entre 1949 e 1951, publicou o Jornal Quilombo. Participou em vários eventos internacionais do mundo africano e do 2º Festival Mundial de Artes e Culturas Negras e Africanas em 1977. Em 1980, contribui para a fundação do Partido Democrático Trabalhista (PDT). Um ano mais tarde, foi escolhido vice-presidente e fundou o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros. Como deputado federal entre 1983 e 1986, apresentou projeto de lei que previa a criação de cotas de 20% para negros na seleção de candidatos ao serviço público. Entre 1991 e 1994, assumiu o cargo de secretário Extraordinário de Estado de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras (Seafro) do Rio de Janeiro. Foi eleito, também em 1991, senador da República e ocupou o cargo de secretário de Estado de Direitos Humanos e da Cidadania do Rio de Janeiro em 1999.

Entre os títulos já concedidos ele por universidades estão o de Doutor Honoris Causa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), em 1993, e da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 2000. Em 2001 recebeu o  prêmio Mundial Herança Africana, Schomburg Center for Research in Black Culture e o Prêmio UNESCO, categoria Direitos Humanos e Cultura de Paz. Em 2004 recebeu o prêmio de Reconhecimento 10 Years of Freedom – South Africa 1994-2004, do Governo da África do Sul. Além disso, foi reconhecido pela Presidência da República, neste mesmo ano, como maior expoente brasileiro na luta intransigente pelos direitos dos negros no combate à discriminação, ao preconceito e ao racismo.

Fontes: Site Abdias Nascimento, Portal Alfro.

André Rebouças
Ativo militante do movimento abolicionista, fundador da Sociedade Brasileira contra a Escravidão. Seu pai era filho de escrava alforriada. André, baiano, foi educado no Rio de Janeiro, e tornou- se um dos maiores engenheiros do país na época. Viveu entre 1838 e 1898.

Dandara
Mencionada nas lendas como principal companheira de Zumbi, mas não existem informações suficientes sobre a sua vida e luta.

João Grande
João Oliveira dos Santos nasceu no interior da Bahia, e recebeu o nome João Grande do mestre Pastinha (um grande referencial da capoeira angola). O mestre é um dos mais antigos da capoeira de angola, e a ensinou durante muito tempo em Salvador. Só que o mestre passou por muitas dificuldades para cultivar a sua arte, e teve que deixar a prática. João Grande foi encontrado em 1981 pelo mestre Moraes (um dos sua seguidores), e depois de ser ajudado o mestre foi convidado a participar do Festival de Arte Negra de Atlanta, nos EUA. Então, João Grande passou a morar em Nova Iorque e criou sua academia, a Capoeira Angola Center. Após o reconhecimento pela sua arte o mestre João Grande ganhou o título de doutor honoris causa pela Universidade de Upsala, em Nova Jersey.

João Pequeno
João Pereira dos Santos nasceu no interior da Bahia, e conheceu a capoeira quando fugiu da seca para Alagoinhas. Foi através do chamador de boi da Fazenda São Pedro, em Mata do São João, que ele descobriu a arte. João Pereira se mudou para Salvador e se inscreveu no Centro Esportivo de Capoeira Angola, que era do mestre Pastinha. Em 1945, João Pereira passou a acompanhar o mestre pastinha que lhe deu o cargo de treinel. Logo depois João Pereira se tornou João Pequeno. Assim, no final da década de sessenta o mestre Pastinha sentindo que não podia mais ensinar passou o seu lugar para João Pequeno.  Sendo assim Pequeno treinou grandes nomes na academia de Pastinha, e de lá foi que saiu o seu grande parceiro João Grande.

Lélia Gonzalez
Mineira de nascimento (1935), filha de um ferroviário negro e mãe de origem indígena empregada doméstica e penúltima de dezoito irmãos migra em 1942 para o Rio de Janeiro. Sua trajetória guarda pouca semelhança com a maioria da população negra, pois ascende de babá a professora universitária. Engajou-se na luta contra o racismo e sexismo na década de 70, no Rio de Janeiro, ainda um período de forte repressão dos governos militares. Pioneira nos cursos sobre Cultura Negra, com destaque para o 1º Curso de Cultura Negra na Escola de Artes Visuais, no Parque Lage. Esta escola foi também lugar de expressão de vários artistas e de intelectuais negros. Fez inúmeras viagens no Brasil e no exterior (EUA, países da África, da América Central, do Caribe e da Europa) buscando denunciar o mito da democracia racial brasileira e o regime de exceção em que Brasil sua meta era, enquanto intelectual e ativista, oferecer instrumentos práticos e teóricos de desmonte das opressões vividas pela maioria da população brasileira. Faleceu em 1994.

Luiz Gama
Filho de Luiza Mahin, soube denunciar, com competência e indignação, a escravidão perversa. Sozinho, libertou mais de 500 escravos nos tribunais. Herdou da mãe o caráter altivo. Seu pai era de uma família ilustre da Bahia. Arruinou-se no jogo e acabou vendendo o filho como escravo, em 1840, quando Luiz tinha apenas 10 anos de idade. Luiz Gama teve a dignidade de jamais revelar o nome do seu progenitor. Embarcado para o Rio de Janeiro, com dezenas de outros escravos, foi vendido a um traficante paulista. Subiu a pé de Santos até Campinas, onde foi refugado por um fazendeiro por vir da Bahia, província de má fama à época por ser o teatro de sucessivas rebeliões de escravos.

Alfabetizado por um jovem amigo aos 17 anos, Luiz Gama apaixonou-se de imediato pelos livros, paixão que o acompanhou até a morte. Aos 18, fugiu do cativeiro doméstico, em São Paulo, para sentar praça na Marinha de Guerra. Seis anos depois, já cabo-de-esquadra, insurgiu-se contra um oficial que o insultou, foi preso e compareceu perante o Conselho de Guerra, que o excluiu dos quadros daquela força. Retornou a São Paulo, onde passou a trabalhar no escritório de um escrivão e depois na Secretaria de Governo da Província. Nessa ocasião, decidiu estudar direito para defender em juízo a vida e a liberdade da imensa população de negros escravos, mas foi repelido pelos estudantes quando tentou matricular-se na Faculdade de Direito.

Tomou, então, como opção definitiva atuar como rábula até o fim da vida, em 1882. A grande questão jurídica que Luiz Gama levantou, na imprensa e nos tribunais, foi a vigência da lei de 7 de novembro de 1831, a qual, em cumprimento a um tratado de repressão do tráfico negreiro, celebrado por Portugal com a Inglaterra em 1818, declarara livres todos os africanos desembarcados no país após aquela data. No final da vida, Luiz Gama foi o grande inspirador do Movimento dos Caifazes, de Antonio Bento de Souza e Castro, que promoveu a fuga de milhares de escravos, desorganizando irreparavelmente a lavoura nos grandes domínios rurais de São Paulo. Àquela altura, a lei de abolição da escravatura já se tornara inevitável.

Luiza Gaiaku
Luiza Franquelina da Rocha, mais conhecida como Luiza Gaiaku, é considerada uma das mais importantes yalorixá do candomblé jeje da Bahia. Nasceu em 25 de agosto de 1909, em Cachoeira, cidade do Recôncavo Baiano. Gaiaku Luiza que é bisneta de africano e foi nascida e criada dentro do candomblé, chegou a morar dentro da Roça de Ventura. Teve contato com as velhas tias do candomblé que lhe ensinaram muita coisa. Em 1937, Gaiaku Luiza foi iniciada para Oyá na nação kétu, no Ilé Ibecê Alaketu Àse Ògún Medjèdjè, do famoso o Babalorixá Manoel Cerqueira de Amorin, mais conhecido como Nezinho de Ògún, filho-de-santo de Mãe Menininha do Gantois. Foi Sinha Abali, segunda Gaiaku a governar a Roça de Ventura, quem viu que Gaiaku Luiza deveria ser iniciada no djèdjè, nação de toda sua família, e não no Ketu. Assim, encarrega sua irmã-de-santo Kpòsúsì Rumaninha, de sua inteira confiança, a iniciar Gaiaku Luiza no Terreiro Zòògodò Bogun Malè Hùndo, em Salvador. Em 1944 Gaiaku Luiza é iniciada na nação djèdjè sendo a terceira a compor um barco de 3 vodunsì. Seu barco foi constituído por uma Osun, um Azansú e uma Oya.

Luiza Mahin
Não se sabe se veio da África, como escrava, para a Bahia, ou se nasceu em Salvador. Tornou-se livre por volta de 1812. Pertencia à nação nagô-jeje, da tribo Mahin, e fez de sua casa quartel de todos os levantes escravos que abalaram a Bahia nas primeiras três décadas do século XIX. Na revolta de 1830, estava grávida do seu filho Luís Gama – que se tornou poeta e um dos maiores abolicionistas do Brasil. Teve participação atuante na Revolta dos Malês, em 1835. Sua liderança nesse levante abalou as tropas portuguesas. Sua história também ficou no imaginário popular. A única prova documental de sua existência é a carta do seu filho, dizendo que ela veio da Costa da Mina, junto com outros escravos. Reza a lenda que Luiza, aproveitando-se de seu trabalho como quituteira, despachava mensagens escritas em árabe para outros rebelados, através de meninos para levar os bilhetes. Se os escravos tivessem saído vitoriosos, Luiza Mahin teria sido empossada rainha da Bahia Rebelde. A liderança do movimento foi perseguida e castigada brutalmente, mas Luiza conseguiu fugir para o Rio de Janeiro, onde continuou a luta pela liberdade de seu povo. Nesta cidade foi presa e, possivelmente, deportada para a África.

Mãe Aninha
Eugênia Anna dos Santos fundou o Ilê Axé Opô Afonjá, hoje é um dos mais importantes terreiros do candomblé, em 1910. Era filha de africanos e descendente de Gruncis (nação cujo ritual tem algumas diferenças dos de Ketu). Por causa da sua atuação social e do respeito que conquistou junto às pessoas influentes da Bahia, a Yalorixá teve participação fundamental no Decreto de Liberdade de culto às religiões africanas, assinado pelo então presidente Getúlio Vargas, na década de 30. Mãe Aninha era filha de Xangô e foi iniciada na casa de Bamboxê. A sua importância é reconhecida na história da cultura e religiosidade da Bahia. A yalorixá foi também uma das pioneiras na Lavagem do Bonfim, para onde ia com suas filhas de santo, em romaria com vassouras e águas de cheiro. Em 1936, Mãe Aninha criou o corpo dos doze Obas de Xangô, seis da direita e seis da esquerda, com a intenção de preservar os cuidados com os terreiros. O sonho de Mãe Aninha de criar uma escola para que as crianças tivessem acesso a língua Ioruba, foi realizado por Mãe Stella de Oxossi, em 1987, que também criou o Museu Museu Ilê Ohun Lailai, em 1980.

Mãe Menininha do Gantois
Umas das mães-de-santo mais famosas e importantes do país, Maria Escolástica Conceição Nazaré, mais conhecida como Mãe Menininha do Gantois, foi uma das grandes defensoras da preservação dos cultos Afro-brasileiros na época da escravidão, principalmente nos espaços do Engenho Velho ou a Casa Branca, o terreiro mais antigo da Bahia. Mãe Menininha nasceu em 10 de fevereiro de 1894. Tornou-se yalorixá em 1922, sob o reino de Oxum. Faleceu aos 92 anos, com 74 de iniciação ao culto. Considerada por muitos uma sacerdotisa excepcional pelo ser humano que era, Mãe Menininha era conhecida ela sua tranqüilidade e sabedoria. Reverenciada por grandes personalidades do mundo artístico e político, Mãe Menininha foi também imortalizada por Dorival Caymmi, na música Oração a Mãe Menininha, que a chamou de “a mãe da doçura”, “a Oxum mais bonita” e a celebrou com versos sublimes, como: “Olorum quem mandou essa filha de Oxum tomar conta da gente e de tudo cuidar”.

Mãe Stella de Oxóssi
Maria Stella de Azevedo Santos, conhecida como Mãe Stella de Oxóssi, Iya Odé Kayode, nasceu em Salvador, no dia 2 de maio de 1925. É uma das principais sacerdotisas responsáveis pela preservação da religião africana no país. Mãe Stella de Oxóssi, é responsável pelo terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, fundado em 1910 e transformado em Patrimônio Histórico Nacional. A instituição religiosa situa-se no bairro de São Gonçalo do Retiro, em Salvador, e abriga uma escola de ensino básico que atende a 300 crianças da comunidade. Entre outras especificidades, a cultura africana faz parte do currículo obrigatório. O terreiro desenvolve também, em parceria com o Unicef e a Comunidade Solidária, programas profissionalizantes e culturais para 150 adolescentes. Quando assumiu o Ilê Axé Opó Afonjá (Casa onde Xangô é o Senhor) sucedendo Mãe Ondina, foi a mais jovem ialorixá da Bahia.  No entanto, a ascensão de Mãe Stella marca um fato também importante, que é a continuidade da tradição do matriarcado no Opó Afonjá. Além de comandar as tarefas religiosas da comunidade-terreiro, onde vivem mais de cinqüenta famílias, Mãe Stella implantou também alguns projetos sócio-culturais.  Um deles é a Escola Eugênia Anna dos Santos (Iyá Oba Biyi) – fundadora do Axé Opó Afonjá. Mãe Stella se destaca também por ter sido a primeira ialorixá a escrever livros sobre sua religião. Sua última publicação, atualmente esgotada, Meu tempo é agora, foi escrita em 1993 e editada pela Editora Odudua, de São Paulo.  Tem proferido palestras e participado de seminários em diferentes partes do Brasil e do mundo. Em 2001 ganhou o prêmio jornalístico Estadão na condição de fomentadora de cultura. Em 2005, ao completar 80 anos, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia. É detentora da comenda Maria Quitéria (Prefeitura do Salvador), Ordem do Cavaleiro (Governo da Bahia) e da comenda do Ministério da Cultura.

Manoel Faustino
Um dos líderes da Revolta dos Alfaiates, também conhecida como Revolta dos Búzios, Conjuração Baiana e Inconfidência Baiana. Era aprendiz de alfaiate e lutava pela independência do país e abolição da escravatura. Junto com João de Deus, Luís Gonzaga das Virgens e Lucas Dantas, foi enforcado na Praça da Piedade em 1799. Sua cabeça ficou exposta no Cruzeiro do São Francisco, no Terreiro de Jesus.

Maria Filipa
Natural de Itaparica, a heroína negra foi uma liderança destacada em 1822, na luta contra o domínio português, quando comandou dezenas de homens e mulheres, negros e índios, na queima de 42 embarcações de guerra que estavam aportadas na Praia do Convento, prontas para atacar Salvador. Esta ação foi vital para a Independência da Bahia. Em sua biografia destaca-se também a lendária história de quando Maria Felipa usou galhos de cansanção para dar uma surra nos vigias portugueses Araújo Mendes e Guimarães das Uvas.

Mário Gusmão
É considerado o maior ator negro contemporâneo da Bahia. Participou de dezenas de peças de teatro, fez dezesseis filmes, participou de novelas e seriados na televisão brasileira, além de inúmeros espetáculos de dança, tornando- se, como o disse Clyde Morgan, um arquétipo, um ícone para a população afro-baiana e um personagem mitificado por todos aqueles que lutam pela igualdade racial na Bahia. Mário Gusmão nasceu em 1928, na cidade de Cachoeira, no dia em que os terreiros baianos comemoram o grande orixá Ogum. Funcionário da Penitenciária Lemos Brito por 23 anos, seu espírito artístico o levou à Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, onde se diplomou em dezembro de 1960. Desde então, dedicou-se inteiramente à cultura. Participou de dezenas de peças teatrais, de vários filmes, de novelas e mini-séries na televisão brasileira.

Entres alguns dos filmes que participou estão: O Caipora, de Oscar Santana, O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro e Idade da Terra, ambos de Glauber Rocha, Bahia Fantástica, Pindorama, Rebelião dos Brutos (filme italiano), Anjo Negro (onde foi o principal personagem), Madame Satã, D. Flor e seus Dois Maridos e outros. No teatro, a participação de Mário Gusmão foi marcante, com a montagem de peças de diversos autores contemporâneos ou clássicos, na Escola de Teatro da UFBA. Fez Almanjarra, Cachorro Dorme nas Cinzas e O Moço Bom e Obediente. Em 59, atuou no Auto da Compadecida, e na Ópera dos Três Tostões, de Brecht. Em 1962, ao lado de Antônio Pitanga, fez Chapetuba Futebol Clube, de Oduvaldo Vianna Filho. A partir de 1964, com a montagem de Eles Não Usam Black Tie, de Guarnieri, com direção de João Augusto, Mário Gusmão agitou o Teatro Vila Velha. Na televisão participou em dez novelas, entre elas Maria Maria, depois A Vida de Antônio Conselheiro, Dona Beija (sucesso da rede Manchete nos anos 80), Tenda dos Milagres, O Pagador de Promessas e Teresa Batista.

Tido como um dos fundadores do Olodum, ele esteve nos principais grupos – dentre eles o Ilê Aiyê e o Muzenza. Não foi a toa que ele foi fundador de quase todos os blocos afros existentes em Salvador. Participou de todas as iniciativas de conscientização do problema do negro no Brasil, fazendo pesquisas sobre a cultura afro-brasileira, como a que realizou na África, após participar do I Festival Internacional de Arte e Cultura Negra, quando percorreu durante oito meses a Nigéria, Senegal, Costa do Marfim, Angola e Daomé. Em novembro de 1984 a Câmara dos Vereadores lhe conferiu o título de Cidadão de Salvador. No dia 20 de novembro de 1996 – dia nacional da consciência negra – ele morreu no Hospital Português, onde estava internado, em conseqüência de um câncer generalizado. Morreu aos 68 anos como sempre foi sua vida: lutando. Foi um dos fortes referenciais de resistência negra através dos palcos e das telas. Viveu atuante na profissão que escolheu. Usou gestos e palavras como forma de se fazer enxergar. Quem entende a importância disso, sabe muito bem o que significa a perda do ator.

Fonte: “Mario Gusmão: Um Príncipe Negro na Terra dos Dragões da Maldade” | Jeferson Barcelar, Editora Pallas

Mestre Bimba
Manuel dos Reis Machado, o mestre Bimba, foi o responsável pela legalização da capoeira no Brasil.  Mestre Bimba foi o lutador que fez a luta proibida se tornar arte, e ser reconhecida internacionalmente. Em agosto de 1936, após conseguir derrotar seis soldados com os segredos da capoeira, Bimba foi convidado pelo chefe de polícia para trabalhar como inspetor de quarteirão no bairro Vila América. Mas o capoeirista não aceitou, porque não concordava com o método agressivo adotado pelos policiais do estado da Bahia.

Por essa e outras história o mestre Bimba é considerado quase uma lenda, e era respeitado até pelos seus inimigos. Nunca se ouviu falar em uma luta perdida por Bimba, ele usava lutava com muita malandragem e movimentos rápidos. Muitos diziam que o mestre era o próprio Deus da capoeira encarnado. A magia da capoeira começava quando com baqueta e caxixi à mão, ele tocava berimbau de forma que ninguém até hoje consegue imitar. Bimba também era conhecido por Três Pancadas, porque dizem que nenhum de sue adversários agüentavam mais que isso durante uma luta. Mas o que levou esse homem negro, de família pobre, a conquistar o respeito da preconceituosa sociedade baiana no séc. XX, foi a mesma razão que já impulsionou diversas transformações: um sonho. O sonho do mestre Bimba era elevar a capoeira, e transformar o jogo que era proibido por lei, em uma prática respeitada. E seu sonho foi realizado na década de 30, uma época em que as estratégias de resistência cultural se expandiam. E assim Bimba criou a primeira academia de capoeira legalizada do país.

Mestre Pastinha
Vicente Joaquim Ferreira Pastinha, mais conhecido por Mestre Pastinha, nasceu em 1889 e foi um dos principais mestres de Capoeira da história. Dizia não ter aprendido a capoeira em escola, mas “com a sorte”. Afinal, foi o destino o responsável pela iniciação do pequeno Pastinha no jogo, ainda garoto. Em depoimento prestado no ano de 1967, no ‘Museu da Imagem e do Som’, ele relatou a história da sua vida: “Quando eu tinha uns dez anos – eu era franzininho – um outro menino mais taludo do que eu tornou-se meu rival. Era só eu sair para a rua – ir na venda fazer compra, por exemplo – e a gente se pegava em briga. Só sei que acabava apanhando dele, sempre. Então eu ia chorar escondido de vergonha e de tristeza.  Um dia, da janela de sua casa, um velho africano assistiu a uma briga da gente. Vem cá, meu filho, ele me disse, vendo que eu chorava de raiva depois de apanhar. O tempo que você perde empinando raia vem aqui no meu cazuá que vou lhe ensinar coisa de muita valia.

”Começou então a formação do mestre que dedicaria sua vida à transferência do legado da Cultura Africana a muitas gerações”. Foi na atividade do ensino da Capoeira que Pastinha se distinguiu. Ao longo dos anos, a competência maior foi demonstrada no seu talento como pensador sobre o jogo da Capoeira e na capacidade de comunicar-se. Os conceitos do mestre Pastinha formaram seguidores em todo Brasil. A originalidade do método de ensino, a prática do jogo enquanto expressão artística formaram uma escola que privilegia o trabalho físico e mental para que o talento se expanda em criatividade. Foi o maior propagador da Capoeira Angola, modalidade “tradicional” do esporte no Brasil. Entre seus alunos estão Mestres como João Grande, João Pequeno, Curió, Bola Sete (Presidente da Associação Brasileira de Capoeira Angola), entre muitos outros que ainda estão em plena atividade. Sua escola ganhou notoriedade com o tempo, frequentada por personalidades como Jorge Amado, Mário Cravo e Carybé, cantada por Caetano Veloso no disco Transa (1972). Apesar da fama, o “velho Mestre” terminou seus dias esquecido. Expulso do Pelourinho em 1973 pela prefeitura, sofreu dois derrames seguidos, que o deixaram cego e indefeso. Morreu aos 93 anos.

Milton Santos
Nascido em Brotas de Macaúbas no dia 3 de maio de 1926, o baiano Milton Santos foi um desses raros pensadores brasileiros cujas reflexões e produção teórica repercutiram não só além das fronteiras de seu país, como também além do âmbito de sua comunidade profissional. Considerado, por consenso, o maior nome da geografia em nosso país introduziu importantes discussões na geografia, como a retomada de autores clássicos, e foi um dos expoentes do movimento de renovação crítica da disciplina. Preocupado com a questão metodológica, construiu conceitos, aprofundou o debate epistemológico e buscou na transdisciplinaridade uma visão totalizadora da sociedade.

Professor da USP e da Universidade Federal da Bahia, entre outras instituições do Brasil e do exterior, presidente da Associação dos Geógrafos Brasileiros, foi preso durante o regime militar, exilando-se depois na França. Foi dos poucos cientistas brasileiros que, expulsos durante a ditadura militar (naquilo que foi conhecido por êxodo de cérebros). De volta ao país em 1978, passaria a ter papel mais decisivo ainda no debate de idéias que levaria o Brasil, pouco a pouco, a um Estado democrático. Intelectual comprometido com os grandes problemas e questões de seu tempo, sobretudo com aquelas parcelas da população marginalizadas pelo perverso processo de globalização ora em curso, deixou sua marca de indignação e revolta por todos os meios e instrumentos nos quais teve a oportunidade de manifestar suas idéias, fossem eles textos acadêmicos, aulas na universidade, artigos de jornais ou entrevistas nos programas de televisão.

Sua obra O espaço dividido, de 1979, é hoje considerado um clássico mundial, onde desenvolve uma teoria sobre o desenvolvimento urbano nos países subdesenvolvidosSuas idéias de globalização, esboçadas antes que este conceito ganhasse o mundo, advertia para a possibilidade de gerar o fim da cultura, da produção original do conhecimento – conceitos depois desenvolvidos por outros. Doutor honoris causa em vários países, ganhador do prêmio Vautrin Lud, em 1994 ( o prêmio Nobel da geografia), professor em diversos países (em função do exílio político causado pela ditadura de 1964), autor de cerca de 40 livros e membro da Comissão Justiça e Paz de São Paulo, entre outros

Zeferina
Líder do Quilombo do Urubu, que ficava entre o Parque de São Bartolomeu e o Cabula. Presa pelas tropas do governador da região Conde dos Arcos, foi levada acorrentada até a Praça da Sé para “servir de exemplo”. Foi de cabeça erguida. Lá, disse de onde viera e que estava ali para libertar o povo dela. Sua história ficou no imaginário popular, principalmente no cais da Bahia. Viveu no século XIX.

 

Bahia.com.br
Copyleft 2019